Um Sentido Interpretativo; Ocidente para Oriente
Ao que se refere acerca da Restauração Meiji e seus desdobramentos étnicos e culturais podemos de certa forma atribuir que algumas centenas, de páginas já se debruçaram sobre a questão algumas vezes de forma copiosa, pouco densa é verdade. Destarte este “vácuo” tem sido deveras perceptivo, sobretudo, no que tangue a produção brasileira. Tendo em vista que América do Norte, assim como a Europa, seguem uma linha de pesquisa oriental muito mais pontual e produtiva que a do Brasil. Embora aqui residam segundo o banco de dados do Wikipédia (2009) cerca de 1,5 milhões, de descentes de imigrantes japoneses, posicionando o Brasil como a maior colônia de japoneses fora do Japão.
Mesmo assim, apresentamos certa defasagem literária nacional acerca do orientalismo. Devemos apontar algumas ponderações acerca das dificuldades e imediatismos históricos decorrentes da abordagem acadêmica ao Japão. Contudo se pensarmos a nível “macro” vários conceitos dos quais são trabalhados, tanto em nosso texto quanto em demais obras no sentido de “enquadrar” o Extremo Oriente têm orbitado a margem das produções científicas de maior repercussão no universo acadêmico. Portanto carentes de um método que comporte maior acuidade histórica, ou seja, sem uma problematização adequada a questão oriental e suas idiossincrasias. Esses imediatismos históricos não representam riqueza de conteúdo suficiente para que possam resolver nossas problematizações.
Segundo Said (2007) é justamente da falta de cuidados no trato com o Oriente, ou ainda a imagem reducionista e caricata na qual somos induzidos que embasam muitas das aferições que porventura, lançamos ao mundo oriental. Contudo, são em historiadores de produção “catálografica” como Hobsbawm, que iremos buscar a contextualização basilar ao desenvolvimento de nossa análise. Encontramos também na História das Colonizações de Marc Ferro, uma projeção diferenciada de como foram às expansões ultramarinas do Japão Imperialistas. Assim como, através de Benedict Anderson, se encontram as premissas de um Nacionalismo Oficial, ocorrido no Japão Meiji.
Ainda falta-nos contemplar um tópico deveras pertinente acerca do o “sentido” interpretativo lançado ao Extremo Oriente. Não seria esse um olhar ocidental? Tendo em vista, que entre muitos outros fatores nossa própria localização geográfica, nos situe consideravelmente afastados do Oriente. A essas indagações metodológicas, sem que sejamos evasivos podemos considerar que a maioria, se não totalidade de vertentes teóricas das quais nos deparamos “conduzem-nos” a lançar um olhar teórico em função Ocidente-Oriente. Mesmo porque, as dificuldades de assimilação da própria língua japonesa, e inclusive do pensamento oriental são a princípio, um obstáculo de difícil transposição.
Contudo se nos apropriarmos do raciocínio de Edward Said (2007), quando afirma que não precisamos ser orientais, para escrever sobre o Oriente, tão pouco precisamos estar presencialmente lá para “desvendá-lo”. A abordagem histórica pode ser feita sem problemas, por pesquisadores distanciados temporal e espacialmente de seu objeto de estudo. Desde que, sejam tomadas as devidas precauções quanto à língua, cultura, e arquétipos incutidos através do senso comum ocidental mediante o qual, se interpõem ao cientificismo ou mesmo o desvirtuam, a fim de, reproduzir o Oriente enquanto uma espécie de “espelho convexo” do ocidente. Em outras palavras seria o mesmo que dizer que o Oriente é uma sociedade sempre refletora, porém de forma descompassada de um padrão moderno e ocidental.
No entanto, apesar de toda complexidade dessa abordagem oriental, procuramos pautar nossa análise, sob uma perspectiva mais acessível, de modo a nos mantermos em uma posição comparativista. Assumindo o pressuposto de que o Japão mimetiza padrões ocidentais, não podemos jamais, cair na armadilha de subvencionar qualquer superioridade a entre Ocidente – Oriente.
O contexto social do Oriente opera sob uma dinâmica diferenciada do ocidental. Destarte seria muita inocência, ou presunção atribuirmos que este (mimetismo) ocorre sem nenhuma adaptação posterior onde quer que “crie raízes” “Mesmo a adoção maciça de elementos culturais estrangeiros por uma nação inteira nunca abole por completo o caráter nacional.” (BAUER, 2000 p.61)
Conceito de Nacionalismo
Cabe abrir um momento de reflexão em torno do Nacionalismo, do qual exploramos. O termo “Nacionalismo” é deveras abrangente já tendo sido teorizado por diversos autores, mesmo assim continua sendo revivido devido sua enorme abrangência e complexidade.
Otto Bauer que por sua vez parafraseia Bahegot diz o seguinte “Bagehot diz que a nação é um daqueles muitos fenômenos que compreendemos desde que não nos façam perguntas sobre ele, mas que não sabemos explicar em termos breves e sucintos” (BAUER, 2000 p. 45)
Portanto nos pautaremos basicamente na premissa de um fenômeno Nacionalista relativamente novo, que começa dar os primeiros passos por volta do século XVIII mediante um processo imaginativo comunitário, termo explorado por Benedict Anderson. Portanto a época determinante a estruturação deste movimento, teria sido justamente o século XIX. Entre outras razões por assinalar este momento, uma época de maturação e cristalização maior do Nacionalismo.
Compete então esclarecermos algumas questões em aberto, principalmente quanto à origem do exercício imaginativo que consideramos antecessor ao Nacionalismo contemporâneo. Para isso devemos estar cientes de que, como um fenômeno social, o Nacionalismo jamais foi em momento algum homogêneo, sobretudo, nas formas pelas quais os diversos Estados o manobraram, atendendo as necessidades particulares de cada ocasião, desde onde o Nacionalismo é primeiramente imaginado comunitariamente (Europa), ou onde esse Nacionalismo é importado (Japão).
No caso das Comunidades Imaginadas, o que aflora na mentalidade dos habitantes do Velho Mundo a partir do século XVIII, a principio é um, certo sentimento de coletividade, de irmandade e reciprocidade social. Ainda assim, continua sendo um vínculo virtual à bem da verdade. Pois em partes esta “irmandade” provinha justamente de uma idealização nacional oriunda, da enxurrada de material livresco, popularizado cada vez mais, entre as camadas mais abastadas da sociedade européia, que Benedict Anderson trata, por Revolução Lexicografia. (ANDERSON, 1989)
Sem sombra de dúvidas, o arsenal literário que inundou a Europa do século XVIII, sacudiu a imagem que os europeus construíam de si próprios. Onde antes se fixava a coluna estática do cristianismo e consequentemente do latim como língua padrão, agora pairava todo um universo de particularidades a serem “redescobertas”.
Aberto o campo da imaginação, a concretude territorial coletiva pareceu mais possível de se realizar, muito embora, empregar o conceito de Nacionalismo, a essa altura da história europeia acarretaria com certeza em um neologismo de nossa parte.
Pode-se perceber bem melhor por que essa transformação seria tão importante para o nascimento da comunidade imaginada da nação se considerarmos a estrutura básica de duas formas de imaginar que pela primeira vez floresceram na Europa, no século XVIII: o romance e o jornal. Pois essas formas ofereceram os recursos técnicos para “re-[a]presentar” a espécie de comunidade imaginada que é a nação. (ANDERSON,1989 p .34)
Muito embora, a elite leitora e assimiladora dessa construção imaginativa, quanto à unidade social, pudesse enfim por em prática o que anos de suspiros e anseios de emancipação contidos haviam encruado, era preciso romper com as velhas bases de governabilidade, e ordenação social (feudalismo) “O Estado Nacional completa a tarefa, derrubando toas as barreiras que fragmentavam a atividade econômica e política, e eliminando as velhas lealdades feudais, que dificultavam a realização da unidade nacional” (LEVI, 2004)
Com a conscientização da burguesia quanto à necessidade, de ruptura com a monarquia absolutista (Revolução Francesa), que nosso conceito de Nacionalismo encontra “terreno” para ser aplicado. Somente após esse contexto histórico, que o projeto de “Nacionalização” esteve culturalmente “maduro” o suficiente para então, junto com o modelo de Revolução a partir do século XIX tornar a França burguesa, e conseguintemente “Centro Irradiador” (de modelos) Revolucionários.
Destarte, mais que um projeto de coesão Nacional, pautado na política e economia, o Nacionalismo desdobrou-se, sobretudo, dentro de uma burguesia articulada, que manobra o poder da “vontade Nacional” em suas mãos. “Essas unidades que ligam a soberania à cultura são conhecidas como Estados Nacionais. Durante os dois séculos que se seguiram à Revolução Francesa, o Estado nacional tornou-se a norma política” (GELLNER, 2000 p.107)
Imperialismo Nipônico
Imperialismo é o sistema (“princípio ou espírito”) e posse de um império – o domínio de um país sobre os outros. Os impérios surgiram da mesma forma que os estados – um mais forte que o outro. Dado esse extenso pedigree e a vinculação de império à conquista militar e iniciativa diplomática, a status, poder e riqueza, “império” e “imperialismo” foram (eram outrora) palavras orgulhosas. (LANDES, 1998 p. 474/475)
Exposta, uma breve consideração a cerca do Imperialismo pelo historiador Norte Americano David S. Landes. Resta-nos a partir deste momento, aprofundarmo-nos um pouco mais neste assunto, que assim como o Nacionalismo, permitiram identificar com maior clareza os desdobramentos destas políticas no tocante ao xenofobismo étnico do Japão Meiji.
Embora, de todas as nuances das quais possamos atrelar, o ato de invasão e expropriação militar, de um território por outro Estado beligerante. Teria sido, sobretudo, durante o século XIX que as estruturas de sustentação da máquina de guerra estatal encontravam-se “afinadas” de modo a cooptar em consonância com uma elite cada vez mais acumuladora de capital[1], e ávida por novos mercados consumidores. De acordo com Anderson (2000) que por sua vez parafraseia John Breuilly, no tocante a confluência entre iniciativa privada e Estado, que busca respaldar este raciocínio, dando ênfase ao viés patriótico de modo que, os interesses econômicos do empresariado representassem de certa forma os interesses geopolíticos contrastantes do século XIX. Em outras palavras seria o mesmo que dizer, que durante houve uma convergência entre Estado e Iniciativa Privada, espraiando-se no campo social.
Muito embora, para o observador que analisa o desenrolar de toda uma era que o historiador inglês Eric J. Hobsbawm denominou por “A Era dos Impérios 1875-1914”mo sendo a ERouc era de ços dquiria movimneot 4545454545454545454545454545454545454545454545454545454545454545454545454545454545454545454545454545454545454545454545454545454545454545454545454545454545. Parece óbvia a conexão entre ambos os sistemas que imperavam na época, Capitalismo e Imperialismo, mas o método ao se fazer história que Edward Carr (1978) nos subvenciona a ir além da superficialidade dos fatos históricos.
Mediante este olhar crítico, identificaremos no século XIX a maturação não apenas do Nacionalismo, mas sim de uma “simbiose” entre este conceito, e uma nova forma de expansão militar (Imperialismo), que passou a operar muito mais por um viés político e econômico, do que tão somente estratégico e militar.
Trabalhando estes conceitos podemos sintetizar então, que este “fenômeno”, chamado Imperialismo teria sido encadeado entre outros fatores, pela necessidade de crescimento econômico e a busca por mercados consumidores, de produtos manufaturados, e logo em seguida industriais, produzidos nas grandes metrópoles mundiais. Através de uma abordagem Lewinista o Imperialismo seria de modo resumido, a busca desenfreada por mercados consumidores que regulava as expansões ultramarinas dos Estados Nacionais. A partir de então cada vez mais o Estado desempenha papel crucial na vida, e na política tanto interna quanto externa dos Impérios. (HOBSBAWM, 1988)
Contudo a fim de, obtermos uma visão mais ampla da dimensão que o imperialismo, atingiu dentro do panorama social do século XIX, contemplaremos também uma visão marxista, que comporte uma breve argumentação acerca do Imperialismo. Mediante este sistema (imperialista) adquire uma conotação político/ideológica deveras acentuada. Onde em suma podemos defini-lo como uma evolução do liberal capitalismo sob uma nova diretriz. Admitindo que o mundo e suas riquezas deveriam pertencer ao Estado mais apto sociocultural ou militarmente, podemos identificar este conceito nas políticas de eugenia desde o século XIX, ou ainda na “limpeza” racial promovido tanto pela política nazi-fascista, quanto pelo Japão Imperial. Seria então (auto) outorgada a Nação superior e legitimada (advento do nacionalismo) que teria então o direito de anexar outras nações menores, de tantas formas das quais pudesse dispor.
Basta-nos atentar que o peculiar deste fenômeno Imperialista contemporâneo, além de comportar um viés puramente econômico, acomoda uma extensão das rivalidades e competições ideológicas dos diversos Impérios que se lançavam as conquistas ultramarinas no século XIX. O resultado desta “competição” se materializa através de uma “bulimia territorial” onde cada pedaço de terra expropriado representará supremacia racial, em detrimento a outro Estado qualquer. Se procurarmos entender por este prisma as prerrogativas culturais nipônicas dentro dessa lógica imperialista, podemos atribuir algo como a seguinte afirmação de Marc Ferro (1996 p. 129)
Levando em conta a natureza do Japão, trata-se de assimilar as populações, de japonizá-las, o que é possível considerando suas raízes próximas, e é justo em virtude dos princípios de Confúcio que exigem que reine a igualdade sob a mesma dominação – no caso a do imperador.
Sendo assim, é justamente nessa esfera de disputas imperialistas e raciais, que o nacionalismo opera a “simbiose” da qual nos referíamos, de modo que figurou como fator de coesão, bem como vetor de uma torrente xenofóbica deveras recorrente. Logicamente o capital continuava sendo o fio condutor do imperialismo, porém é o caráter patriótico que figurou como detonador, das anexações imperialistas da época.
Dessa forma teremos as conquistas ultramarinas britânicas na África (muito embora essas conquistas tenham se operado mais na forma colonial, do que meramente imperial), ou ainda a dos Franceses na Indochina. “(…) mesmo os homens de negócio limitado á procura de lucros (…)”. “Não ficavam imunes aos apelos políticos, emocionais, ideológicos, patrióticos ou mesmo raciais associado tão patente a expansão imperial.” (HOBSBAWM, 1977 p. 95)
A razão econômica de agressividade característica da política imperialista levada a efeito por Estados como Alemanha, Itália e o Japão, onde o problema das dimensões territoriais, demasiado limitadas peara as exigências do desenvolvimento econômico, se tornava particularmente grave, devido também ao atraso com que haviam chegado a participar na expansão imperialista formal e informal. (PISTONE, 2004 p.618)
No entanto, não podemos conceber o Imperialismo, como expressão máxima do capitalismo e a subsequente expansão ultramarina, sem articularmos o Nacionalismo como plano de fundo, trazendo consigo todo arsenal ideológico e cultural, por vezes muito mais tenaz, do que apenas o que lucro capital em si próprio comportaria.
A Derrocada do Bakufu Tokugawa
Uma vez abordado o panorama político ocidental em vigência no predecessor à Restauração Meiji (1867). Parece-nos lúcido contemplar este mesmo contexto desta vez sobre a perspectiva nipônica. Contudo é relevante determo-nos nos anos que anteriores a Restauração a fim de que, possamos melhor compreender o peso não apenas da nova diretriz política do Estado Meiji, mas sim suas frustrações e receios, que o farão tomar duras medidas raciais, de abrangência interna e externa.
No ano de 1852, o estadunidense Matthew Calbraith Perry (1794-1858), recebe a incumbência do Congresso Norte Americano, de capitanear uma esquadra aos longínquos mares orientais donde o Japão mantinha-se resoluto em vetar a navegação estrangeira. Sua missão era clara e objetiva. Restringia-se em entregar uma missiva redigida pelo então chefe de estado americano Millard Fillmore (1800-1874), ao Imperador do Japão. (RUAS, 2008)
O conteúdo desta carta transmitia recomendações para que o Japão abrisse seus portos de forma “amigável” aos baleeiros americanos. Permitindo assim, que esses reabastecessem e efetuassem possíveis reparos em seu território com salvaguarda total e irrestrita do governo, por parte do governo japonês. Obviamente que além destas prerrogativas os americanos também objetivavam uma concessão imperial à extração madeireira em território nipônico, uma vez que, os vapores americanos dos quais o próprio Perry aportou no Japão eram movidos a base de carvão vegetal.
Em contrapartida o governo estadunidense garantiria a integridade e soberania nipônica caso o mesmo resolvesse colaborar. Muito embora a carta não tenha feito menção a nenhuma ofensiva militar instantânea, a própria esquadra com a qual Perry tinha rumado ao Japão já assegurava um poder de persuasão subjetivamente imenso. Basta mencionar que os nipões passaram a chamar os navios americanos de esquadra negra, devido aos cascos negros de suas canhoneiras movidas a vapor. (RUAS, 2008)
Diante da sensível superioridade naval americana o Xógunato resolve ceder, após ter protelado o máximo que pode. Ao que tudo indica, o Japão parece ter sido vítima de seu próprio veneno. Não fosse à ordem Xógunal dada por Iemitsu Tokugawa (1636) que embargava a construção de toda, e qualquer embarcação que pudessem cobrir longas viagens marítimas, assim como o comércio com a maioria do mundo ocidental. Tendo em vista tal decisão a marinha do Japão encontrava-se no início do século XVIII obsoleta e incapacitada de se defender militarmente ante qualquer ofensiva estrangeira.
O sistema do bakufu[2] vinha passando por uma série de complicações de ordem política e social, assim como por catástrofes naturais, endividamento, entre outros agravantes. Portanto a investida dos americanos, nada mais se configurou do que um golpe de misericórdia ao regime bakufu Tokugawa.
Iesada Tokugawa, o Xógum que assinou o Tratado de Paz e Amizade, com as nações ocidentais conhecido por “Tratado de Kanagawa”, em 31 de março de 1854. Sofre duras críticas internas por conta, desta concessão, sendo visto como um homem apático e de espírito fraco. A crise política só se agravaria com sua morte (1857) e posteriormente em torno da sucessão Xógunal.
O fato é que Iesada morre sem deixar herdeiros diretos. O conselho do clã Tokugawa se reúne e decide proclamar como Xógum Iemochi Tokugawa, um adolescente de apenas 12 de idade. Contudo, os daimyô das províncias mais afastadas da capital imperial (Kyoto) reclamam à sucessão em nome de Yoshinobu, oriundo de um ramo lateral do clã Tokugawa. (COGGIOLA, 2008)
Estes daimyô insurgentes integram uma liga secreta chamada Sat-Chô-To-Hi[3], ante a pressão que fazem acabam levando ao poder Yoshinobu, porém com a intenção de manterem a política de isolamento do país. Contudo, o novo Xógum se mostrou mais propenso à modernização do Japão do que sua retração. Yoshinobu também visava fortalecer ainda mais o poder de seu Xógunato minando a influência dos daimyô, principalmente daqueles que o colocaram no poder. (FRÉDERIC, 2008)
Pressionado por sua própria base de sustentação, ou seja, os daimyô e desta fez endossado inclusive pelo próprio imperador Mutsuhito (Meiji). Yoshinobu acaba renunciando. Embora, tenha tentado uma manobra arriscada na qual intentou preservar as enormes províncias de seu clã (Tokugawa). Seu plano não dá certo, e no dia 15 de dezembro de 1867, é solapado do poder junto com o cargo que ocupava (Xógum), por um pequeno efetivo militar encabeçado pelos daimyô da liga decretando então o fim do regime (Tokugawa) de aproximadamente 264 anos.
Meiji Isshin, A Restauração
De acordo com Sette (1991) Isshin de forma sucinta significa renovação, ou transformação. Tradicionalmente no Japão cada Imperador escolhe uma denominação a fim de, aferir ao seu reinado, algo que queira transmitir aos seus súditos. Prática não muito distante daquela que faziam os reis europeus. No caso japonês além de Isshin o imperador escolhe mudar seu nome de Mutsuhito para Meiji, dando início a uma nova era de renovação nipônica.
Embora os próprios interesses dos daimyô tenham mudado ao avançar da Restauração, confluindo em uma espécie de sintonia rumo a um Estado político moderno, enxuto, e prospecto. Logicamente esta dinamização do poder político sofreu oposição principalmente dos samurais mais recalcitrantes. Dando origem a movimentos rebeldes chamados de “legalistas“, que operando na clandestinidade incumbiam samurais de assassinar pessoas influentes do governo entre liberalistas e estrangeiros. (COGGIOLA, 2008)
Deflagrada a Restauração Meiji, toma a cena política nipônica, a busca por um “ponto equilíbrio” do sistema governamental nipônico que embora monárquico, fosse dinâmico o suficiente para suportar novos cargos, político, administrativos, assim como a regulamentação das terras, impostos, bancos e demais instituições que porventura necessitassem de intermediação governamental. Junto e essas preocupações ainda pairava a necessidade de legitimação do governo nipônico ante as nações ocidentais, a fim de, que respaldassem a orientação política vigente no Japão.
Assim sendo, sob égide do Estado Meiji o poder político passa a influir cada vez mais no cotidiano popular. No plano político-racial podemos sublinhar algumas medidas de natureza dúbia como a padronização da escrita em Katakaná (1890), em detrimento da escrita chinesa empregada na vinculação de documentos oficiais desde o século VI.
Esta “emancipação” lingüística vem ao encontro da nacionalização da cultura nipônica, uma vez que, a Era Meiji é considerada como época da modernização e ocidentalização, temos na prática efeitos ambivalentes, como a abertura econômica e até certo ponto cultural, e a introspecção de outros elementos da cultura nativa japonesa.
A política de educação também tencionou-se à um certo “nipponcentrismo”, ao passo que reproduzia a teogonia nipônica, mediante cartilhas didáticas pregando a superioridade do povo nipônico por ser descendente de uma linhagem imaculada dos deuses xintó. (BENEDICT, 2007)
Todavia, a amplitude do nacionalismo nipônico assente em um xenofobismo exacerbado, mantido tanto fora quanto dentro do próprio Japão, basta observar as políticas de segregação racial admitidas contra os Ainus[4] que foram “confinados” em Hokkaido (Extremo norte do Japão) e impedidos de casarem-se com japoneses. Embora estes indivíduos tenham durante boa parte da história nipônica trocado hostilidades com os nipões durante o Estado Moderno[5] as animosidades se acentuaram. Escrevendo em 1966, portanto cerca de duas décadas após o final da Segunda Guerra Mundial, J. E. Kidder contabilizou aproximadamente 15.000 Ainus que desde as políticas Meiji sofreram uma redução considerável em seu contingente populacional. (KIDDER, 1970)
Discorrendo acerca do posicionamento nipônico durante a guerra Ferro, reserva estas palavras:
Um imenso relatório japonês, de 1942-3, intitulado “Projeto de uma política global da qual a raça yamato seria o núcleo” (…) trata-se de alguma coisa mais ampla, minzoku, ou seja, uma cultura encarnada por um povo, sendo que o Japão se situa no topo dessa escala cultural (…) os casamentos mistos de ser reduzidos ao mínimo, “não porque os mestiços sejam em geral inferiores, mas porque esses casamentos mistos destruiriam a solidariedade psíquica da raça Yamato” (…) “Oito endereços para um só vento” define bem a concepção japonesa de colonização dos outros: a esfera de co-prosperidade é identificada com uma grande família que seria dirigida pelo irmão mais velho – no Japão, essa hierarquia familiar dos direitos e poderes é um dos fundamentos mais rígidos das relações sociais. [...] (FERRO, 1996 p.129)
Com base nestes dados podemos considerar que os japoneses em menor intensidade teriam sido envoltos, pela sedução da supremacia racial, resquícios do darwinismo social, que eclodiam em boa parte do mundo ocidental. Contudo, mediante a atmosfera nacional imperialista apregoada pelo governo Meiji, o observador nipão, é doutrinado a acreditar na superioridade étnica de povo, consagrando sua cultura em detrimento ao mundo ocidental, ou mesmo oriental.
Benedict Anderson, considera o fato de o Japão ter passado cerca de 220 anos isolado do resto do mundo, como fulcral a homogeneidade fenotípica do japonês. Deste modo o Japão pôde se concentrar em “imperializar biologicamente” outros lugares inclusive mandando levas de imigrantes para o resto do globo.
O fato de esse nacionalismo ter adquirido um caráter imperialista agressivo, mesmo fora dos círculos dirigentes, pode ser mais bem explicado por dois fatores: a herança do prolongado isolamento do Japão e o poder do modelo nacional oficial. (ANDERSON, 1989 p 109)
1
1.3
1.4
1.1-
Considerações
No entanto resta-nos ter em mente, que em nosso objeto de estudos, nos aproximaremos mais de autores como Benedict Anderson (1989), que atrela a Nacionalidade, inclusive a nipônica ao fator “língua”, e ao fator “identificação coletiva” que o autor trata por “imaginação”. Surge daí o conceito que Anderson denomina de comunidade imaginada, e seus desdobramentos no plano prático se dividem entre Oficial (governo) e Não-Oficial (sociedade), como não é nossa intenção retomar a raiz de conceitos já tipificados, nos prenderemos ao conceito de Nacionalidade enquanto um instrumento nato ou não, em alguns casos latente, de um povo ou nação.
Anderson (1989) afirma haver muitas variantes a fim, abordar ou mesmo imaginar uma comunidade de párias que tem por finalidade conseguinte se tornar uma nação nos moldes modernos. Portanto o autor encontra no caso nipônico um fator decisivo que mostraremos ter sido muito bem utilizado pelo governo. Este teria sido justamente o fator biológico e linguístico.
Como sabemos o Japão passou cerca de dois séculos e meio isolado do resto do mundo, isto proporcionou relativa isonomia cultural entre os nipões, de modo que mesmo assim até o advento da Restauração a sociedade japonesa não havia sido pensada de um modo universal e unificado apesar da centralização e relativa paz do Xogunato Tokugawa. Isto porque não teria havido ainda a necessidade de enquadrar o Estado da forma como registrou-se necessária após a era Meiji.
Embora contando com tantos fatores positivos ao florescimento de um sentimento nacionalista, este fenômeno social permaneceu latente até a restauração, onde, sobretudo, teremos este conceito atrelado à figura hierofana do imperador, enquanto mantenedor do estado, e representante divino não só da casa imperial nipônica mais sim de todos os seus súditos.
Deste bojo de misticismo a necessidade governamental teria sido visada de tal forma, a legitimar a autoridade Imperial, de modo que na ocasião de seu juramento, Meiji delega aos seus ancestrais o seu direito de governabilidade. Com isso nada mais, pretende do que perpetuar não apenas a sua autoridade enquanto agente “máximo” do Estado, mas também insuflar o brio dos japoneses para que estes se sentissem também herdeiros, e propagadores da imagem de um Estado sólido e coeso em todas as esferas possíveis.
A partir desse ponto, o Estado passa a “doutrinar” os japoneses, de modo a venerar a pátria, essa é a base da cartilha escolar elaborada pelo Departamento de Educação juntamente com o departamento do Xintó, que discorria a história do povo nipônico atrelando-a à uma longa teogonia, cuja permanência da linhagem divina manifestada no próprio Imperador como afirma Benedict Ruth (2007).
Somente com base nesses dados é que podemos observar do ponto de vista racional que, esteja disposta na Constituição em seu primeiro capítulo no artigo primeiro que o imperador provém de uma longa linhagem divina da qual deve ser perpetuada para sempre. Já em seu artigo terceiro onde a constituição é categórica em afirmar que o poder do imperador é soberano e inviolável.
Destarte remetemo-nos aos artigos do primeiro capítulo da Constituição que se encarregam de incumbir o Imperador de declarar a guerra ou paz, assim como os outros que atrelam a ele a autoridade sobre o Exército e Marinha. Toda essa primazia em detrimento das forças armadas tem como foco respaldar anexações ultramarinas, como ilustra o caso da guerra Nipo-Russa (1904-1905).
Assim como o militarismo, a Restauração Meiji, foi “mãe” de muitos outros conceitos dos quais ainda hoje adquirem ênfase histórica, tal qual o caráter modernizante em que se pautaram muitas das decisões tomadas durante os anos do Imperador Meiji (1867-1911). Tal orientação se encontra expressa no próprio juramento imperial onde os motivos da futura estruturação acompanharam um curso natural em detrimento aos avanços ocidentais “Em atenção à tendência progressiva do curso de negócios humanos e em paralelo com o avanço de civilização” (JAPÃO, 1889)
Logicamente o impulso modernizante não ocorreu de modo unilateral, o interesse em modernizar o Japão emergiu da confluência das bases rurais que a princípio apresentaram considerável resistência, da nobreza interessada na centralização do poder imperial, e das bases burguesas (comercias), com a extinção de arquétipos estruturais arcaicos (jurídico) e governamentais obsoletos, como o caso do Xógun em 1867 e dos samurais em 1870 (SETTE 1991).
Contudo devemos entender a modernização engendrada durante a Era Meiji não apenas como um [re] aparelhamento político, burocrático, e financeiro, mas também como fruto de uma orientação e enquadramento nipônico aos padrões ocidentais, de forma que fosse mantida a essência cultural japonesa mimetizando, em maior ou menor grau padrões já estabelecidos no ocidente. Esta modernização Meiji se operou de modo idiossincrático cuja função social e jurídica se processou de forma a pulverizar estados de julgamento obsoletos, e por sua vez universalizar e nacionalizar as posturas ideológicas.
O sucesso dessa laboriosa jornada pode ser medido através da eficiência com qual o Império passa a gerir questões de ordem socioeconômica. Visando entre outros, interesses um militarismo expansivo registrado desde o início da Restauração. Cessado apenas mediante a imposição do “Instrumento de Rendição do Japão” assinado à 2 de setembro de 1945, na Baia de Tókyo. Portanto podemos concluir que os efeitos da administração Meiji, de forma alguma se restringiram ao longo período de reinado do Imperador (1867-1914).
No entanto talvez, nem os próprios patriarcas da Restauração poderiam ter concebido que a projeção das reformas administradas durante a Era Meiji acabassem trazendo consigo efeitos colaterais tão nocivos, quanto os registrados em Hiroshima e Nagasaki à 6 e 9 de Agosto de 1945. Contudo o êxito no plano social foi incontestável, uma vez que no início do século XIX o Japão situava-se num denso ostracismo econômico e no limiar deste mesmo século depois de empreendidas séries de “modernizações” a economia nipônica emergia do total obscurantismo a uma assombrosa proeminência.
Onde não teria sido possível encontrar uma única fabrica em 1853, prosperavam indústrias em 1903, sujando de fumaça os céus de onde haviam descido os deuses para criar as ilhas nipônicas e produzindo para a população os bens tradicionais de consumo, além de artigos outros que nunca haviam sido vistos naquelas terras.
(SETTE 1991, p. 2)
Enfim, encaminhamo-nos as disposições finais de nossa análise para podermos discorrer de forma sucinta sobre determinados aspectos da Meiji Issihin, onde, sobretudo, configurou-se como um momento ímpar durante os cerca 2670 [6] anos de história política japonesa. Seus efeitos espraiaram-se tanto no campo econômico quanto no social. Legando as gerações futuras uma tradição assente entre o passado e o futuro, que de forma idiossincrática arbitrou em preservar na medida do possível seu núcleo cultural intacto.
Deste modo, a aplicação do termo ao contexto político japonês na ocasião da Restauração Meiji, consegue analogamente exprimir de forma cabível o processo de “importação” de arquétipos ocidentais necessários a instrumentalização de um “Estado Moderno”, perante qual o Japão se vê as voltas durante o século XIX. Portanto, aquilatada à luz de uma orientação política de necessidades internas, porém atinada economicamente para fora de seus próprios limites. As elites nipônicas percebem que a manutenção de sua autonomia política dependeria justamente do êxito neste processo adaptativo, caso contrário o Império do Sol Nascente poderia ruir, assim como o Chinês ante as nações ocidentais. Tarefa que por sinal logrou fazer de forma eficiente como, enfim podemos destacar através das palavras de Lidenberg Sette (1991, p. 147)
Certamente, a Restauração Meiji não assegurou a cada um dos japoneses a sua felicidade individual. Não deu riqueza e prosperidade instantânea ao povo. Não realizou uma utopia. Mas não eram esses os seus objetivos. A revolução dos samurais foi feita para evitar a colonização do Japão e fazer dele uma nação moderna, respeitada pelo mundo e dotada de respeito próprio, coisas que não podiam ser separadas. Esses objetivos foram atingidos com êxito extraordinário.
Referencias
CARR, E. H/ Que é História/ Rio de Janeiro/ Paz e Terra, 1978.
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[1] Devido aos avanços tecnológicos trazidos pelas Revoluções Industriais Europeias a parir do século XVII
[2] Gover
[3] Esta liga integrava os daimyô das províncias de; Satsuma, Chôshû, Tosa, Hizen.
[4] Espécie de aborígenes nipônicos cuja a estadia no arquipélago japonês seja registrada desde o século III a.C.
[5] Subtenda-se Estado Meiji
[6] Chegaremos a esta estimativa se considerarmos correta a cronologia contida no Kojiki (712) que atribui como sendo Jimmu Tennô o primeiro Imperador do Japão governado entre 660–582 a.C.
